Por Que a Subespecialidade Está em Expansão no Brasil
Resumo: A cirurgia de ombro e cotovelo é uma das subespecialidades que mais crescem dentro da ortopedia no Brasil. Com avanços que vão da artroscopia à robótica, passando pela prótese reversa e pelas transferências musculares, a área oferece ao ortopedista em formação um campo com demanda crescente, base científica sólida e evolução técnica constante. Neste artigo, traçamos o panorama da subespecialidade no país: sua história, os marcos técnicos, os números que sustentam a expansão e o caminho da formação.
Em 1983, o Hospital das Clínicas da FMUSP inaugurou o primeiro serviço ambulatorial dedicado exclusivamente à cirurgia de ombro e cotovelo no Brasil. Quatro décadas depois, a subespecialidade se consolidou como uma das áreas de maior crescimento dentro da ortopedia, impulsionada por avanços tecnológicos, pelo envelhecimento da população e pela demanda crescente por procedimentos cada vez mais precisos.
Para o ortopedista em formação ou o especialista que avalia uma mudança de foco, entender esse cenário é o primeiro passo para tomar uma decisão informada.
Uma especialidade construída em quatro décadas
A cirurgia de ombro e cotovelo se estruturou no Brasil a partir de dois núcleos acadêmicos pioneiros. Na FMUSP, o Grupo de Ombro e Cotovelo (GOC) do Instituto de Ortopedia foi criado em 1983, construindo o primeiro laboratório de artroscopia da América Latina. Na UNIFESP (Escola Paulista de Medicina), o serviço foi fundado em 1987 por iniciativa do Prof. José Laredo Filho, sob a chefia do Dr. Sérgio Nicoletti, que trouxe treinamento de centros especializados dos Estados Unidos.
Um marco fundamental foi a realização da primeira cirurgia de Bristow-Latarjet no Brasil, pelo Dr. Arnaldo Amado Ferreira Filho, em 1972. Sua tese de doutorado de 1984, sobre o tratamento da luxação recidivante anterior do ombro pela técnica de Bristow-Latarjet, tornou-se referência em diversas instituições do país. O Dr. Arnaldo é reconhecido, ao lado do Dr. Donato D’Angelo, como um dos pais da cirurgia de ombro no Brasil.
Em 1988, durante o XXVI Congresso Brasileiro de Ortopedia em Brasília, 24 cirurgiões fundaram o Comitê de Ombro e Cotovelo (COC) da SBOT, que em 1998 se tornaria a Sociedade Brasileira de Cirurgia do Ombro e Cotovelo (SBCOC). A sociedade cresceu até contar com mais de 800 membros ativos e 25 centros de treinamento credenciados em 2013 (ano da publicação comemorativa de 25 anos da sociedade), e em 2007 sediou o 10º Congresso Internacional de Cirurgia de Ombro e Cotovelo (ICSES) na Bahia, colocando o Brasil no mapa mundial da subespecialidade.
O que mudou: da cirurgia aberta à artroscopia e à robótica
A evolução técnica nas últimas décadas transformou o que o cirurgião de ombro e cotovelo pode oferecer ao paciente.
A revolução artroscópica. Durante as décadas de 1980 e 1990, os primeiros reparos artroscópicos de Bankart foram desenvolvidos, inicialmente com taxas de recidiva superiores às da cirurgia aberta. A evolução dos sistemas de âncora de sutura nos anos 2000 mudou esse cenário, tornando os resultados artroscópicos comparáveis aos da técnica aberta. Hoje, o reparo artroscópico de Bankart é a técnica dominante para instabilidade anterior do ombro.
O auge dessa evolução veio em 2007, quando o cirurgião francês Laurent Lafosse publicou a primeira descrição de um procedimento de Latarjet totalmente artroscópico, uma técnica que antes só era possível por via aberta. O trabalho foi publicado na revista Arthroscopy e abriu um campo inteiramente novo para o tratamento da instabilidade glenoumeral com perda óssea.
A prótese reversa do ombro. Em 1985, o cirurgião francês Paul Grammont desenvolveu a prótese reversa do ombro, baseada no princípio de medialização do centro de rotação. Ao inverter a configuração da articulação (esfera na glenoide, cavidade no úmero), a prótese permite que o deltoide compense a ausência do manguito rotador. O modelo Delta III, lançado em 1991, tornou-se o padrão e revolucionou o tratamento da artropatia do manguito rotador e de casos de revisão. No Brasil, a artroplastia reversa começou a ser utilizada a partir de 2007.
Transferências musculares para lesões irreparáveis. Para lesões maciças e irreparáveis do manguito rotador, a fronteira atual são as transferências musculares. O Prof. Dr. Bassem Elhassan, à época na Mayo Clinic e atualmente chefe do Serviço de Ombro do Mass General Brigham e professor da Harvard Medical School, desenvolveu a transferência do trapézio inferior para o manguito posterossuperior, publicada em 2016 no Journal of Shoulder and Elbow Surgery com resultados positivos em 32 de 33 pacientes. Essa técnica, inicialmente realizada por via aberta, já conta com uma versão artroscópica assistida.
Navegação e robótica na artroplastia de ombro. Em fevereiro de 2024, o sistema ROSA Shoulder (Zimmer Biomet) recebeu aprovação do FDA como o primeiro sistema robótico para artroplastia de ombro. Embora a robótica para ombro ainda esteja em estágio inicial de adoção global, o planejamento cirúrgico assistido por computador e a navegação intraoperatória já fazem parte da realidade de centros de referência, permitindo maior precisão no posicionamento de componentes protéticos.
Os números que explicam a demanda
Dados demográficos e epidemiológicos sustentam a expansão da subespecialidade.
Envelhecimento populacional. Segundo o IBGE, a população brasileira com 60 anos ou mais quase dobrou entre 2000 e 2023, passando de 8,7% para 15,6% do total. A projeção para 2070 é que 37,8% da população terá 60 anos ou mais. O envelhecimento está diretamente associado ao aumento de patologias degenerativas do ombro, como artrose glenoumeral, lesões do manguito rotador e artropatia do manguito.
Volume cirúrgico em artroplastia de ombro. Dados do SUS entre 2012 e 2021 registraram 7.340 artroplastias de ombro no sistema público, com 55% concentradas na região Sudeste. Esse número reflete apenas o sistema público; estimativas de mercado indicam volumes significativamente maiores quando considerada a rede privada.
Crescimento da ortopedia no Brasil. O país conta com mais de 20 mil especialistas em Ortopedia e Traumatologia registrados no CFM, um crescimento entre 80% e 100% na última década, segundo a Demografia Médica no Brasil 2023 (AMB/FMUSP). A ortopedia é a sexta maior especialidade médica do país.
O caminho da formação em ombro e cotovelo
A subespecialização em cirurgia de ombro e cotovelo segue um caminho estruturado. Após a residência médica em ortopedia (tipicamente 3 anos), o médico realiza um fellowship de 1 ano em um centro credenciado pela SBCOC. Ao concluir, está apto a prestar o exame para o título de especialista da sociedade.
Além dos fellowships tradicionais, programas de pós-graduação lato sensu vêm ampliando as opções de formação, combinando teoria online com prática intensiva em laboratório de peças anatômicas fresh frozen. Esses programas permitem que ortopedistas de diferentes regiões do país acessem treinamento de alto nível sem a necessidade de se mudar para um grande centro por um ano inteiro.
Um campo em transformação
O cirurgião de ombro e cotovelo de hoje opera em um cenário muito diferente daquele de 1983. A artroscopia expandiu o que é possível realizar de forma minimamente invasiva. A prótese reversa transformou o tratamento de pacientes que antes tinham opções limitadas. As transferências musculares trouxeram soluções para lesões antes consideradas irreparáveis. A navegação e a robótica prometem elevar a precisão a outro patamar.
Para o ortopedista que busca uma subespecialidade com demanda crescente, base científica sólida e evolução técnica constante, a cirurgia de ombro e cotovelo representa uma das escolhas mais consistentes da ortopedia contemporânea.
A SRCO (Scientific Research & CO) oferece a Pós-Graduação em Ombro, Cotovelo e Trauma do Esporte no Membro Superior, um programa híbrido de 400 horas em parceria da Faculdade BP e reconhecimento do MEC. O corpo docente inclui 26 professores nacionais e internacionais, com prática intensiva em peças anatômicas fresh frozen no Centro de Treinamento Quirontec, em São Paulo.
Fontes consultadas
- SBOT. História da SBOT. sbot.org.br
- Camanho GL. SBOT Turns 90. Rev Bras Ortop, 2025. (PMC11903114)
- SBCOC. 25 Anos de Avanços e Conquistas. 2013.
- Instituto de Ortopedia HC-FMUSP. História do Grupo de Ombro e Cotovelo. ombro-cotovelo.org
- Ferreira Neto AA. Arnaldo Amado Ferreira Filho: A pioneer in shoulder and elbow surgery in Brazil. Rev Bras Ortop, 2021. (PMC7895611)
- Lafosse L, et al. The Arthroscopic Latarjet Procedure. Arthroscopy, 2007;23:1242.e1-1242.e5. (PubMed 17986415)
- Elhassan BT, Wagner ER, Werthel JD. Outcome of lower trapezius transfer. J Shoulder Elbow Surg, 2016. (PubMed 26968088)
- Boileau P, et al. Grammont reverse prosthesis: design, rationale, and biomechanics. J Shoulder Elbow Surg, 2005. (PubMed 15726075)
- Zimmer Biomet. ROSA Shoulder FDA 510(k) Clearance. Press Release, Feb 22, 2024.
- IBGE. Projeções da População 2024; Censo 2022.
- Leite LMB, et al. Shoulder arthroplasties in the Brazilian SUS 2012-2021. Research, Society and Development, 2023.
- AMB/FMUSP. Demografia Médica no Brasil 2023.