13/04/2026 - 10h38
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Artroplastia de Ombro em 2026

Da Prótese Anatômica à Robótica

Resumo: A artroplastia de ombro é o procedimento ortopédico que mais cresce no mundo, superando as taxas de expansão da artroplastia de quadril e de joelho. Da prótese de Neer nos anos 1950 ao sistema robótico ROSA Shoulder aprovado em 2024, o campo evoluiu em múltiplas frentes: indicações expandidas para a prótese reversa, navegação intraoperatória, implantes customizados para perda óssea severa e, agora, assistência robótica. Neste artigo, revisamos o estado atual da artroplastia de ombro e o que está mudando a prática do cirurgião.

A artroplastia de ombro atravessa uma fase de transformação. Nos Estados Unidos, o volume de procedimentos cresceu mais de 100% entre 2011 e 2017, com projeções de aumento entre 67% e 235% até 2025, taxas superiores às da artroplastia total de quadril e de joelho. No Brasil, dados do SUS registraram 7.340 artroplastias de ombro entre 2012 e 2021, com o setor privado representando volumes significativamente maiores. O envelhecimento populacional, a expansão das indicações da prótese reversa e os avanços em planejamento e tecnologia intraoperatória explicam esse crescimento.

De Neer ao cenário atual: uma linha do tempo

A história moderna da artroplastia de ombro começa com Charles S. Neer II, professor da Columbia University e fundador da American Shoulder and Elbow Surgeons (ASES). Em 1953, Neer realizou a primeira implantação de uma prótese para o úmero proximal, publicando sua série inicial de 12 pacientes no Journal of Bone and Joint Surgery em 1955. A prótese original, feita de Vitallium (liga de cobalto-cromo), foi desenvolvida para fraturas cominutivas do úmero proximal.

Na década de 1970, Neer redesenhou a prótese (Neer II), incorporando um componente glenoidal de polietileno e inaugurando a era da artroplastia total do ombro. Paralelamente, em 1985, Paul Grammont desenvolveu na França a prótese reversa do ombro, baseada nos princípios de medialização do centro de rotação e distalização do úmero. O modelo Delta III, lançado em 1991, revolucionou o tratamento da artropatia do manguito rotador. A prótese reversa recebeu aprovação do FDA nos Estados Unidos em 2003.

Desde então, o uso da prótese reversa expandiu-se de forma expressiva: entre 2010 e 2020, as fraturas do úmero proximal tornaram-se a principal indicação para rTSA, superando a artrose, e o volume total de procedimentos cresceu mais de 300% na mesma década.

Artroplastia total anatômica: quando o manguito está íntegro

A artroplastia total anatômica (aTSA) permanece como a indicação primária para artrose glenoumeral com manguito rotador funcional e estoque ósseo glenoidal adequado. A lógica é simples: preservar a biomecânica nativa do ombro quando a anatomia permite.

Indicações

  • Artrose glenoumeral primária com manguito rotador íntegro
  • Artrose secundária (artropatia por instabilidade, osteonecrose, artrite inflamatória com manguito preservado)
  • Estoque ósseo glenoidal suficiente para fixação do componente

Contraindicações

  • Lesão irreparável do manguito rotador
  • Perda óssea glenoidal severa incompatível com o componente anatômico
  • Paralisia do nervo axilar ou deficiência funcional do deltoide
  • Infecção ativa

Sobrevida

Dados atuais de registros e séries clínicas mostram:

  • 10 anos: sobrevida de aproximadamente 93 a 96%, com a revisão mais recente (Wiater et al., JAAOS, 2022) reportando 96%.
  • 15 a 20 anos: a sobrevida cai para 70 a 73%, sendo o afrouxamento do componente glenoidal a principal causa de revisão.
  • Pacientes jovens (< 50 anos): sobrevida de 95 a 100% até 10 anos, mas de 61 a 64% além de 15 anos. A taxa cumulativa de revisão em 10 anos é de aproximadamente 16,5% no grupo de 55 a 64 anos, contra 8% em maiores de 75 anos.

O principal desafio da aTSA permanece o componente glenoidal: evidências radiográficas de afrouxamento podem ser encontradas em até 54% dos casos em seguimentos longos, embora a falha clínica que exige revisão seja substancialmente menor.

Prótese reversa: a expansão que transformou a artroplastia de ombro

A artroplastia reversa do ombro (rTSA) é, sem dúvida, o avanço que mais transformou o campo. Ao inverter a configuração articular (esfera na glenoide, cavidade no úmero), a prótese permite que o deltoide compense a ausência do manguito rotador, oferecendo elevação ativa em pacientes que antes tinham opções limitadas.

Indicações: muito além da artropatia do manguito

A indicação original da rTSA era a artropatia do manguito rotador com pseudoparalisia. Hoje, a lista de indicações se expandiu consideravelmente:

  1. Artropatia do manguito rotador (indicação original)
  2. Lesão maciça irreparável do manguito rotador (com ou sem artrose)
  3. Artrose glenoumeral em pacientes idosos (mesmo com manguito parcialmente funcional)
  4. Fraturas complexas do úmero proximal em pacientes acima de 70 anos (3 e 4 partes)
  5. Sequelas de fraturas (pseudoartrose, consolidação viciosa)
  6. Revisão de hemiartroplastia ou aTSA falhas
  7. Artrite inflamatória com deficiência do manguito
  8. Luxações crônicas irredutíveis
  9. Perda óssea glenoidal severa
  10. Ressecção tumoral

Sobrevida e resultados

  • 10 anos: sobrevida livre de revisão de aproximadamente 88%, segundo revisão sistemática de 2025 (7 estudos, 469 procedimentos, seguimento médio de 12 anos). O Constant Score melhora, em média, de 27 para 62 pontos.
  • Por indicação: lesão maciça do manguito apresenta sobrevida acima de 95% em 10 anos; artropatia do manguito em torno de 92%. Tumores ficam abaixo de 55%; sequelas de fraturas e revisões em torno de 80-84%.
  • Dados de registros internacionais confirmam baixas taxas de revisão a longo prazo para as indicações primárias (artrose e artropatia do manguito).
  • Pacientes jovens (< 60 anos): a sobrevida em 10 anos é consistentemente mais baixa do que em pacientes idosos, reforçando a necessidade de cautela na indicação em faixas etárias mais jovens.

O debate entre designs medializados e lateralizados

O design original de Grammont (Delta III) medializa o centro de rotação para a face glenoidal. Embora eficaz para elevação, essa configuração apresenta taxas elevadas de notching escapular (47 a 74% em revisões sistemáticas) e limitação de rotação externa.

Designs com lateralização glenoidal (como o BIO-RSA e glenosferas lateralizadas) reduziram o notching para 5 a 19%. Designs com lateralização umeral melhoram significativamente a rotação externa em comparação aos designs medializados.

Na prática, o cirurgião deve ponderar: a lateralização melhora a mobilidade e reduz o notching, mas aumenta o estresse na interface da placa-base e pode elevar o risco de fraturas acromiais. A sobrevida em 10 anos não difere significativamente entre designs lateralizados e medializados.

Complicações da prótese reversa

Complicação Incidência
Notching escapular (design medializado) 47 a 74% (radiográfico, nem sempre sintomático)
Notching escapular (design lateralizado) 5 a 19%
Instabilidade/luxação 3,6 a 7%
Infecção 1 a 8% (principal causa de revisão em > 10 anos)
Fratura acromial/espinha da escápula 4 a 5% (tempo médio: 9,4 meses pós-operatório)
Afrouxamento glenoidal ~3% em > 10 anos

Glenoide com perda óssea: componentes aumentados e implantes customizados

Um dos maiores desafios da artroplastia de ombro é a glenoide com deformidade posterior (classificações B2, B3 e C de Walch). Nesses casos, o posicionamento de um componente padrão pode resultar em afrouxamento precoce.

Componentes aumentados (augmented)

Placas-base com aumento posterior (full-wedge ou half-wedge) permitem corrigir a retroversão glenoidal sem reaming excessivo, preservando estoque ósseo. Resultados publicados mostram excelentes desfechos clínicos e radiográficos, taxa baixa de afrouxamento (1,2% em 810 pacientes) em seguimento médio de 41 meses, com correção média do ângulo beta de 79,8 para 92,7 graus.

Para a aTSA, componentes glenoidais com degrau (stepped) foram desenvolvidos para glenoidas bicôncavas (Walch B2). Resultados iniciais mostram escores funcionais comparáveis aos de glenoidas normais (Penn Shoulder Score de 97,4 para B2 vs. 95,0 para A1), embora glenoidas B3 severas apresentem taxas mais elevadas de osteólise do pino central (29% vs. 5% em A1).

Implantes customizados

Para casos de perda óssea severa onde componentes padrão ou aumentados são insuficientes (revisões complexas, defeitos glenoidais extensos), implantes customizados fabricados por impressão 3D a partir de TC do paciente representam a fronteira atual.

Sistemas com dados clínicos publicados incluem:

  • ProMade (LimaCorporate/Enovis): implante de titânio impresso em 3D, com maior volume de literatura publicada. Série publicada de 42 pacientes mostrou melhora do Constant Score de 15 para 52 e do ASES de 22 para 71 em seguimento mínimo de 2 anos (média de 31,6 meses).
  • Vault Reconstruction System (Zimmer Biomet): desenvolvido para deficiência severa do vault glenoidal, com séries iniciais de 12 pacientes demonstrando estabilidade de todos os implantes sem afrouxamento em 30 meses.

A principal limitação: todos os estudos publicados têm amostras pequenas e seguimento curto. Dados de sobrevida a longo prazo ainda não estão disponíveis.

Navegação intraoperatória: precisão comprovada

A navegação por computador na artroplastia de ombro permite ao cirurgião posicionar o componente glenoidal conforme o planejamento pré-operatório tridimensional, em tempo real durante a cirurgia.

O sistema mais utilizado e com mais dados publicados é o ExactechGPS, uma plataforma de navegação óptica sem necessidade de fluoroscopia. Estudos cadavéricos demonstram posicionamento dentro de 2 graus e 2 milímetros do plano cirúrgico, com melhora de 8 graus em relação à instrumentação convencional.

A adoção cresceu rapidamente: de 654 casos navegados em 2017 para 9.777 em 2023 (aumento de 15 vezes). Em 2023, a rTSA respondeu por 84% de todos os procedimentos navegados.

A questão central: a navegação melhora desfechos clínicos? Até o momento, a evidência mostra melhora comprovada na precisão do posicionamento, mas ainda não foi demonstrada diferença significativa em amplitude de movimento, escores funcionais ou satisfação do paciente em comparação com a técnica convencional em seguimentos de curto prazo. A expectativa é que a maior precisão se traduza em menor taxa de revisão a longo prazo, mas essa hipótese ainda aguarda confirmação com dados de registros.

Robótica: o próximo capítulo

A assistência robótica na artroplastia de ombro é a tecnologia mais recente a chegar ao campo.

ROSA Shoulder (Zimmer Biomet)

Aprovado pelo FDA em fevereiro de 2024, o ROSA Shoulder foi o primeiro sistema robótico do mundo para artroplastia de ombro. Utiliza planejamento pré-operatório baseado em TC (Signature ONE Planner) e opera em três modos: automático, colaborativo e estático.

  • No úmero: o robô posiciona colaborativamente um guia de corte extramedular; o cirurgião realiza a osteotomia.
  • Na glenoide: o robô guia a fresagem para a versão, inclinação e profundidade planejadas; o restante da preparação glenoidal é manual.

Os primeiros casos clínicos foram realizados na Mayo Clinic pelo Dr. John Sperling em 2024.

Mako Shoulder (Stryker)

Em novembro de 2024, o sistema Mako (Stryker) recebeu aprovação do FDA para artroplastia de ombro, tornando-se o segundo sistema robótico disponível para a articulação. Diferente do ROSA, o Mako utiliza feedback háptico e esculpe ativamente o osso, em vez de apenas posicionar guias. O lançamento comercial foi limitado inicialmente à rTSA.

O que sabemos (e o que ainda não sabemos)

Até o momento, não existem dados clínicos publicados comparando artroplastia robótica vs. convencional no ombro. A justificativa para a adoção é extrapolada da experiência em quadril e joelho, onde a robótica reduziu outliers de posicionamento e pode melhorar a recuperação precoce. Ensaios clínicos específicos para o ombro ainda estão em andamento.

As barreiras para adoção incluem custo, espaço na sala cirúrgica, curva de aprendizado e vinculação ao portfólio de implantes do fabricante.

O que muda para o cirurgião

O cirurgião de ombro em 2026 enfrenta decisões mais complexas, mas também dispõe de ferramentas mais sofisticadas:

  • Seleção do implante: anatômico vs. reverso não é mais uma decisão binária. A zona cinzenta (paciente com manguito limítrofe, glenoide deformada, idade intermediária) exige avaliação individualizada.
  • Planejamento 3D: tornou-se rotina para artroplastias eletivas, com ou sem navegação. A TC pré-operatória com software de planejamento é hoje o padrão mínimo.
  • Manejo da glenoide deformada: componentes aumentados, implantes customizados e técnicas de enxerto ósseo expandiram o arsenal para glenoidas B2, B3 e C.
  • Tecnologia intraoperatória: navegação e robótica melhoram a execução do plano cirúrgico. A evidência de benefício clínico a longo prazo está em construção.

A artroplastia de ombro não é mais um procedimento de nicho. É o campo de maior crescimento em artroplastia ortopédica e exige do cirurgião atualização constante.

A Pós-Graduação em Ombro, Cotovelo e Trauma do Esporte da SRCO dedica módulos inteiros à artroplastia, incluindo planejamento com navegação e robótica (Dr. Bruno Gobatto), artroplastia reversa (Dr. Maurício Raffaelli), artroplastia para fraturas (Dr. Nuno Sevivas) e artroplastia customizada (Dr. Rafaelle Garofalo), com prática em peças anatômicas fresh frozen no Centro de Treinamento Quirontec.

Fontes consultadas

  • Neer CS II. Articular replacement for the humeral head. J Bone Joint Surg Am, 1955;37-A:215-228. (PubMed 14367414)
  • Boileau P, et al. Grammont reverse prosthesis: design, rationale, and biomechanics. J Shoulder Elbow Surg, 2005. (PubMed 15726075)
  • Piper C, Neviaser A. Survivorship of anatomic total shoulder arthroplasty. JAAOS, 2022. (PubMed 35511506)
  • Wagner ER, et al. The incidence of shoulder arthroplasty compared with hip and knee arthroplasty. JSES, 2020. (PubMed 33190759)
  • Revisão sistemática: desfechos de longo prazo da rTSA, mínimo 10 anos. 2025. (PMC12039979)
  • Sobrevida da rTSA por indicação. (PMC9145012)
  • Tendências em indicações e designs de artroplastia de ombro. (PMC12072707)
  • Zimmer Biomet. ROSA Shoulder FDA 510(k) Clearance. Press Release, Feb 22, 2024.
  • FDA 510(k) Mako Shoulder. Clearance K242373, novembro 2024.
  • Tendências de utilização do ExactechGPS na artroplastia de ombro. JSES, 2025.
  • Navegação intraoperatória: precisão vs. desfechos clínicos na rTSA. (PubMed 37650896)
  • Revisão narrativa: navegação assistida por computador na artroplastia de ombro. (PMC12027880)
  • Rangarajan R, et al. Patient-specific 3D-printed glenoid components (ProMade). (PubMed 37263477)
  • Componente glenoidal aumentado (stepped) para patologia B2/B3: resultados iniciais. (PMC8497441)
  • Revisão sistemática: placas-base aumentadas na rTSA. ScienceDirect, 2022.
  • IBGE. Projeções da População 2024; Censo 2022.
  • Leite LMB, et al. Shoulder arthroplasties in the Brazilian SUS 2012-2021. Research, Society and Development, 2023.

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